Harry Potter 20 anos no Brasil: como a saga atravessa gerações

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Harry Potter 20 anos no Brasil: como a saga atravessa gerações


Em abril de 2020, a saga “Harry Potter” completou 20 anos no Brasil. Trazida ao país pela editora Rocco antes mesmo de se consolidar como fenômeno global, a série de livros escrita pela britânica J.K. Rowling continua a conquistar leitores, fato que se reflete nos números de vendas ao redor do mundo.

Prova disso é o fato de que novas edições dos livros chegam constantemente ao mercado. Além das reimpressões das versões originais, a Rocco já publicou no Brasil edições em capa dura, uma caixa cuja lombada forma a imagem da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, e também as edições ilustradas pelo artista inglês Jim Kay.

Celebrando os 20 anos da saga no Brasil, uma nova coleção está sendo lançada no país, trazendo capas duras ilustradas pelo americano Brian Selznick. Juntas, as capas do sete livros formam uma grande imagem única.

Além de novas versões, o interesse por “Harry Potter” também se reflete nas listas dos mais vendidos. Tanto no Brasil, como nos EUA, a série voltou a aparecer entre os cinco mais vendidos entre março e abril de 2020, nas listas do Publish News e do New York Times. O período é marcado pelo isolamento social exigido na pandemia do novo coronavírus, no qual as pessoas estão buscando as mais diversas formas de entretenimento. 

Desde a publicação original em 1997, “Harry Potter” ajudou a formar uma base grande de leitores, que agora passam as histórias do “menino que sobreviveu” para as novas gerações, criando um legado que está longe de acabar.

Da ideia ao fenômeno: uma linha do tempo da saga

O impacto na formação de leitores

Ao redor do mundo, os livros da saga “Harry Potter” venderam mais de 500 milhões de exemplares, em 80 línguas diferentes, consolidando a série na lista dos maiores best-sellers de todos os tempos.

Tendo atingido tantas pessoas, a série criada por J.K. Rowling foi responsável pela formação de uma geração de leitores que cresceu ao mesmo tempo em que os personagens cresciam.

“A experiência de crescer com os livros, criar vínculos e esperar pelo próximo volume é muito única”, disse ao Nexo Cláudia Fusco, jornalista e mestre em literatura inglesa com ênfase em fantasia e ficção científica pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra.

Ela também enxerga que, a partir de “Harry Potter”, incontáveis leitores se interessaram por outros tipos de leitura. 

“O que lemos na infância e adolescência tende a nos marcar para a vida toda, e embora existam pesquisas que apontem que leitores de ‘Harry Potter’ tenham se tornado adultos mais empáticos, é difícil quantificar o tanto que Rowling influenciou novos leitores com suas palavras”, afirmou.

Fusco vê como o maior mérito de “Harry Potter” enquanto saga literária a combinação de elementos folclóricos, uma narrativa sólida e mensagens universais sobre amor e amizade.

“É uma obra ousada em muitos níveis, especialmente ao redefinir alguns espaços da literatura infantojuvenil”, disse. 

 O impacto na formação de escritores

Não só leitores tiveram suas vidas impactadas por “Harry Potter”. Diversos autores decidiram apostar no ofício da escrita ficcional após lerem os livros de J.K. Rowling.

“O senso de comunidade e a paixão dos fãs de ‘Harry Potter’ foram, para muita gente, o início de suas experiências com a internet”, disse ao site Vox Hank Green, youtuber e autor da ficção científica “Uma Coisa Absolutamente Fantástica”, publicada em 2018.

“Aquela comunidade foi vital não só para o meu crescimento enquanto criador, mas também como um cidadão compassivo e consciente da internet”, disse.

Elena Cresci, colunista do jornal britânico The Guardian, decidiu virar jornalista após ter contato com a série.

Os livros inflamaram meu amor pela leitura, e consequentemente meu desejo de escrever”, disse, num texto publicado em 2016. “Eu provavelmente não seria a pessoa que sou hoje se não tivesse crescido como uma garota geek obcecada por ‘Harry Potter’”, afirmou.

A tendência não se limitou aos EUA e ao Reino Unido. No Brasil, a escritora Carolina Munhóz, autora da série de fantasia “Trindade Leprechaun” e co-criadora da série de terror “O Escolhido”, da Netflix, decidiu seguir a profissão após ter contato com a obra de Rowling.

“Eu sofria bullying no colégio, era considerada esquisita e passei por uma depressão. A biblioteca era o meu esconderijo, mas eu não lia nada naquela época, até que uma amiga me desafiou. Em apenas uma semana, eu li os quatro primeiros livros do Harry e comecei a me interessar e a escrever ‘fanfics’”, disse ao jornal O Globo em 2015, fazendo referência a histórias criadas por fãs, mas ambientadas no universo da obra original. 

Um marco para o mercado

Além do legado cultural, “Harry Potter” também foi o estopim para mudanças dentro do mercado de livros. Antes de J.K. Rowling, o mercado de livros infantojuvenis não tinha grande expressividade, e as editoras acreditavam que esse público não tinha paciência para a leitura de um livro longo.

Em 2003, Rowling lançou “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, quinto livro da saga e o maior de toda a série, com 766 páginas na edição britânica. Cerca de 5 milhões de cópias foram vendidas no dia do lançamento apenas nos EUA, um recorde à época.

A saga também reacendeu o interesse do mercado livreiro pela fantasia, gênero que estava com popularidade baixa na década de 1990.

“Ninguém queria chegar perto de histórias de fantasia”, disse ao site ABC Michelle Smith, professora de literatura anglófona na Universidade de Deakin, na Austrália. “Agora temos uma abundância de séries de fantasia, sejam baseadas em temas góticos, como ‘Crepúsculo’, ou então ambientadas em uma distopia futurista, como ‘Jogos Vorazes’”, afirmou.

Para Barry Cunningham, editor que decidiu apostar em Rowling e comprar os direitos de publicação na década de 90, os livros de “Harry Potter” mostraram que livros infantojuvenis, na maioria das vezes, podem ser interessantes para toda a família.

“[A saga] mudou tudo. De repente, editores entenderam que a literatura infantojuvenil não é algo lido somente por crianças, mas, essencialmente, por todo mundo”, disse ao jornal The Telegraph. 

“As crianças que cresceram lendo ‘Harry Potter’ continuaram lendo livros infantojuvenis enquanto adultos, e é por isso que esse mercado tem crescido”, avaliou.

“Harry Potter” não mudou só o mercado em si, mas também uma parte crucial da imprensa especializada em livros.

O jornal The New York Times publica semanalmente, desde 1931, uma lista dos livros mais vendidos nos EUA, sendo a mais importante do tipo.

Por sete décadas, a lista trazia apenas os livros adultos mais vendidos. Mas, em 2000, com o sucesso dos três primeiros volumes da saga, o New York Times decidiu criar uma lista dos livros infantojuvenis mais vendidos, colocando a literatura para crianças e adolescentes dentro do radar cultural de um dos jornais mais importantes do mundo. 

Um legado intergeracional, aquecido pela quarentena

Mesmo 20 anos depois, “Harry Potter” continua aparecendo entre os best-sellers e gerando interesse entre leitores.

Em março, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, primeiro livro da saga, ocupou a quarta posição da lista dos mais vendidos no Brasil. A marca veio no mesmo mês em que começou o período de isolamento social causado pelo novo coronavírus.

A tendência não se limitou ao Brasil. Até a manhã de 28 de abril, a saga, como um todo, ocupava a segunda posição de séries infantis mais vendidas nos EUA, segundo a lista do New York Times. Desde o lançamento nos EUA em 1998, “Harry Potter” aparece na lista dos mais vendidos do país. 

Bruno Zolotar, diretor de marketing da Rocco, afirmou que “Harry Potter” voltou às listas dos mais vendidos em novembro de 2019, mas que houve um aumento maior nas vendas entre o final de março e o final de abril de 2020, período que corresponde ao início do isolamento social e ao fechamento das livrarias.

“O que a gente tem percebido pelas redes sociais, por mensagens, é que tem muitos pais com filhos em casa, aproveitando para começar a ler a série”, disse ao Nexo.

Zolotar afirma que durante a quarentena, uma busca por livros clássicos se consolidou no mercado, e que “Harry Potter” entra nessa tendência por, na sua visão, ser o maior clássico infantojuvenil – ao lado de “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry.

O executivo vê que a base leitora da série é formada por dois grupos igualmente grandes, aqueles que cresceram com a série, e aqueles que estão conhecendo o mundo bruxo agora – o segundo grupo é formado não só pelas novas gerações, como também por adultos que não leram os livros na época e estão tendo um primeiro contato agora.

Para Cláudia Fusco, o legado de “Harry Potter” está longe de acabar, já que os livros seguem sendo reimpressos e produtos derivados são lançados com frequência.

“É uma história universal sobre magia, amor e amizades, e deixou algumas gerações encantadas por mensagens simples, com uma imaginação complexa por trás”, disse. “Meu palpite é que ainda veremos muito ‘Harry Potter’ por aí.”

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